Moedas sociais crescem como estratégia de desenvolvimento social e identidade local na Bahia

  • 04/07/2026
(Foto: Reprodução)
Moedas sociais ganham espaço como estratégia de desenvolvimento econômico na Bahia O dinheiro é, para muitos, o que dita o ritmo da rotina do dia a dia: é o que garante a comida na mesa, os momentos de lazer e o planejamento do futuro. Mas e se essa forma de pagamento mudasse? Já pensou em comprar o pão do café com "Concha" ou pagar o salão de beleza com "Guaraná"? E não daqueles que se encontra na praia ou em árvores. Essas são moedas sociais. O termo é curioso e se refere a uma estratégia de economia solidária, usada com o objetivo de movimentar a renda local das comunidades. Com circulação restrita, esse modelo visa manter os recursos dentro do próprio território. O sistema tem paridade ao Real e é gerido por bancos comunitários. Atualmente, as moedas comunitárias já alcançam desde pequenos distritos no sertão até bairros de Salvador. Servem como ferramenta de auxílio financeiro e também incentivam o consumo interno da região, nos mercados e serviços locais. 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Bahia O superintendente de Economia Solidária e Cooperativismo da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre-BA), José Paulo Crisóstomo, explica que as moedas sociais têm circulação restrita e um objetivo nobre: "Tem justamente como foco principal a questão da redução da pobreza". 🏦 O que são bancos comunitários? Os bancos comunitários fazem parte do movimento de Economia Solidária, constituindo práticas de finanças baseadas na gestão de serviço financeiros em comunidades empobrecidas. Essas estruturas atuam através de processos de desenvolvimento comunitário, articulando diferentes mecanismos de inovação social, em forma de: moeda social: o banco emite sua própria moeda (física ou digital) que circula em comércios locais cadastrados, incentivando o consumo no bairro; microcrédito produtivo: oferecem empréstimos com juros muito baixos ou zero para empreendedores locais, baseados na confiança e no "aval solidário" (vizinhos garantindo o pagamento); gestão comunitária: são administrados por associações de moradores ou ONGs, não visando lucro, mas o desenvolvimento do território. O ciclo funciona da seguinte forma: o banco comunitário emite as moedas sociais e as lançam no território por meio de microcrédito, remuneração, pagamento de benefícios sociais ou no câmbio pelo real para que a população possa utilizá-la na comunidade. As pessoas podem comprar produtos e serviços no pontos de comércio local, que são cadastrados pelo banco comunitário. Quando o estabelecimento ou prestador do serviço recebe a moeda social, ele tem a opção de dar troco aos seus clientes e comprar outros produtos ou trocar o valor equivalente por real, fazendo a circulação da renda dentro da própria comunidade. Ciclo da Moeda Social: como acontece a circulação Arte/TV Bahia 💲 Mais do que economia Para a comunidade beneficiada, a moeda social não é só um meio de pagamento, é uma rede de apoio. Antônia Correia, moradora da Ilha de Matarandiba, em Vera Cruz, utiliza a moeda concha e reconhece o impacto disso nas finanças pessoais. "Eu sou uma pessoa beneficiária da moeda daqui de Matarandiba, e uso a Concha com muito prazer e com muito orgulho porque me ajudou muito na minha vida. Nas horas que eu mais precisei, eu achei o apoio, a ajuda, a compreensão e me fez muito, muito bem", conta a moradora. Antônia afirma, com apreço, que o recurso foi decisivo para realizar o sonho pessoal da casa própria. O acesso ao microcrédito e a aceitação da moeda em lojas de material de construção da própria região foram o diferencial para realizar a reforma da moradia. "É uma benção muito grande que Deus me deu para realizar meu sonho de fazer meu barraco". O sentimento de pertencimento e orgulho são fortes. A moeda social vai além do suporte financeiro, pois o modelo funciona também como um suporte emocional para a sociedade, levando dignidade e autonomia para a população. "Sou beneficiária com muito prazer e muito orgulho. Agradeço muito ao banco aqui com essa moeda e meus votos são para que ele continue e fique para sempre", ressalta Antônia, beneficiária da moeda de Matarandiba há pelo menos sete anos. 🏦 Autonomia local Moradores do bairro do Uruguai, em Salvador, usam moeda exclusiva para fazer empréstimos e movimentar economia local Reprodução/TV Bahia A implantação de uma moeda comunitária ou social cria uma circulação interna de renda. Deste modo, o dinheiro acaba retido no munícipio ou bairro e fortalece o empreendedorismo local. Para a coordenação de Microcrédito e Finanças Solidárias da Setre-BA, a medida gera oportunidades de empregos, dá autonomia de compra ao cidadão e reduz o endividamento da população. "Além de fortalecer o empreendedorismo local, ele gera dignidade, cidadania, porque dá autonomia à pessoa para comprar aquilo que de fato ela precisa. Ele gera independência" , defendeu Crisóstomo. 💱 Como funciona a circulação? A primeira moeda social reconhecida no Brasil foi a "Palma", criada em 1998 em Fortaleza, no estado do Ceará, no Conjunto Palmeiras, em parceria com o Banco Palmas. Segundo a Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia (Setre), o mecanismo da moeda social funciona de forma complementar ao Real com o objetivo de criar uma "engrenagem" própria de consumo: o morador recebe o crédito e o utiliza nos estabelecimentos credenciados, incentivando o empreendedorismo local e mantendo a renda no território. "Uma importância dessa moeda social é que ela evita a fuga do recurso do município. Com isso, gera a oportunidade de trabalho e renda, porque se o comércio está vendendo mais, vai precisar de mais gente, vai estar vendendo e produzindo mais", pontuou José Paulo Crisóstomo, superintendente de Economia Solidária da pasta. 🏦 De onde vem? Entre 2015 e 2025, o país registrou o fechamento de 32,9% das agências bancárias físicas. O cenário é mais crítico em cidades menores. Atualmente, 43,57% dos municípios brasileiros não possuem nenhuma agência bancária, destacou a Setre. A implantação das moedas sociais e dos bancos comunitários — oito instituições já ativas na Bahia —, surge como alternativa para a inclusão financeira. Hoje, existem alguns tipos de bancos comunitários: banco raiz: circula só com moeda de papel; moeda social digital: aplicativo da moeda que permite fazer o câmbio no próprio dispositivo; banco municipal: parceria do município com a comunidade que vem, muitas vezes, atrelada a programas sociais, como o Bolsa Família Municipal. 👤 Identidade e Autonomia Moedas sociais evitam fuga da renda do município e dão independência para a comunidade A implementação da moeda social no comércio é percebida com o aumento dos recursos e, consequentemente, das vendas. "Os comerciantes vêm o tempo inteiro buscando, pensando no que fazer para reter os clientes no município. E a moeda social é o caminho certo para isso, de fato, acontecer" diz o superintendente da Setre-BA. Ele defende que a moeda social é também parte do senso de pertencimento do lugar, pois partilha uma característica de identidade cultural com a comunidade. "A primeira coisa na moeda social é: busca-se algo que a comunidade possa entender, aquilo que é nosso. Por isso que há uma adesão muito forte e rápida por conta dessa questão. A questão do nome é muito importante, é uma necessidade muito grande", pontua Crisóstomo. Moedas sociais levam nome da identidade cultural da região e levam senso de pertencimento Uma das primeiras ações que esse mecanismo procura é criar esse sentimento de identidade unitária da região, busca-se algo que a comunidade possa entender como "dela". Por exemplo, a moeda "Itapicuru", da cidade de Queimadas, ganhou esse nome em homenagem ao rio que passa na cidade. Já em Matarantiba, a "Concha" homenageia os pescadores da região. 💰 Conheça algumas moedas baianas 📍 Queimadas A cidade baiana de Queimadas tem lançamento previsto de moeda social para este ano, chamada de Itapicuru. Ela será exclusivamente digital. Inicialmente será usada em programas sociais da região sisaleira, substituindo a entrega direta de benefícios, como cestas básicas, por repasses em moeda social. A Itapicuru poderá ser utilizada em estabelecimentos comerciais locais previamente cadastrados. 📍 Bairro do Uruguai, Salvador O bairro do Uruguai usa a moeda Umoja, criada pelos próprios moradores por meio da associação Santa Luzia. O nome vem da língua africana Swahili, falada no leste da África, e significa unidade, sendo utilizada para representar a coesão comunitária. A moeda pode ser usada em mais de 50 estabelecimentos comerciais do bairro servindo para fomentar a economia e empreendimentos locais. Qualquer morador do bairro pode ter acesso à moeda como um empréstimo para consumo. 📍 Cardeal da Silva Cardeal da Silva, município no litoral norte do estado, criou um banco municipal e lançou sua moeda social própria, batizada de Mineral em homenagem ao Balneário da Mineral, ponto turístico da cidade. Ambos já estão na fase inicial de funcionamento, sendo usados em programas sociais, compras de alimentos da agricultura familiar regional e materiais para rede municipal de ensino e de saúde. A prefeitura do município vem trabalhado para que os recursos de programas de distribuição de renda do governo federal sejam pagos em parte com o mineral e a expectativa é que o banco municipal também ofereça microcrédito com juros baixos para pequenos empreendedores ampliando as oportunidades de geração de renda da região. 📍 Santa Bárbara Em dezembro de 2025, a cidade de Santa Bárbara comemorou 64 anos da emancipação política da cidade e junto com o festejo foi lançada a sua moeda social, Pacatu. "Isso dá ideia de pertencimento, fortalecimento da cidade, fortalecimento da economia local e, acima de tudo, a gente centralizar nosso comércio para fortalecer cada vez mais, melhorar a vida do nosso povo", disse o prefeito da cidade nas redes sociais. A moeda vem com o objetivo de gerar mais movimento, renda e oportunidades para a cidade podendo ser usado em comércios e serviços cadastrados como mercados, farmácias e alimentação. 📍 Taperoá O município de Taperoá, no Território de Identidade Baixo Sul, lançou um banco comunitário e sua moeda social Guaraná, em 2023. Seguindo a lógica da economia solidária, o Guaraná foi criado para estimular a economia local e finanças solidárias, além de garantir microcréditos para produção e consumo local. A ação é realizada pela Prefeitura Municipal de Tapeorá em parceria com o Centro Público de Economia Solidária (Cesol) do Baixo Sul, com apoio do Governo da Bahia por meio da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre). 📍 Matarandiba Em 2008, com o objetivo de estimular o consumo do próprio território, os moradores da Vila de Matarantiba, na Ilha de Vera Cruz, usaram da economia solidária para criar o Banco Comunitário Ilhamar e, posteriormente, a sua moeda social: a Concha. O nome é uma homenagem aos pescadores da região. LEIA TAMBÉM: Especialista analisa aumento da desigualdade salarial para negros e mulheres na BA: 'Debate não é suficiente para alterar estrutura' Salvador é 4ª capital brasileira com pior qualidade de vida, aponta estudo Dados do IBGE apontam que Salvador não é a cidade mais negra fora da África Veja mais notícias do estado no g1 Bahia. Assista aos vídeos do g1 e da TV Bahia 🖥️

FONTE: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/07/04/moedas-sociais-crescem-como-estrategia-de-desenvolvimento-social-e-identidade-local-na-bahia.ghtml


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