Maconha cresce, cocaína e crack se estabilizam: como os brasileiros aumentaram o consumo de drogas nos últimos 11 anos
22/03/2026
(Foto: Reprodução) Como os brasileiros aumentaram o consumo de drogas nos últimos 11 anos
O percentual de brasileiros que relatam já ter experimentado alguma substância psicoativa de uso proibido ao menos uma vez na vida passou de 10,3% para 18,8% em um intervalo de 11 anos, segundo dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O estudo, que é uma das principais referências epidemiológicas do país, revela que o crescimento no consumo de substâncias ilícitas foi impulsionado majoritariamente pelo consumo de maconha, seguindo uma tendência observada em outros países ocidentais.
Para a psicóloga Clarice Madruga, coordenadora do levantamento, esse salto era esperado devido ao longo intervalo entre as edições da pesquisa (a última foi realizada em 2012 com a mesma metodologia) e à percepção social sobre os riscos da droga.
“O Brasil tinha, em 2012, uma prevalência de consumo de maconha baixa em relação a outros países. A prevalência mais alta, na verdade, que se destacava naquela época era o consumo de cocaína e crack. O que parece ter ocorrido nesses 11 anos, embora ainda faltem evidências mais robustas, é que o uso ao longo da vida aumentou, enquanto o uso recente não. Isso sugere que, em algum momento do período, pode ter havido crescimento no consumo de cocaína e crack que não foi captado na época, e que depois se estabilizou. Assim, o aumento de cerca de 80% é explicado principalmente pela cannabis, que antes estava muito abaixo da média", explica a pesquisadora.
Segundo Clarice, esse aumento aconteceu em todos os países ocidentais em que há registro. “Em alguns países, esse aumento ocorreu antes. No Brasil, isso aconteceu nos últimos dez anos. Em 2012, tínhamos um consumo de maconha baixo e agora ele está dentro de uma média”, complementa.
Os resultados
Consumo de drogas ilícitas entre homens e mulheres
Arte g1
O levantamento também detectou mudança no perfil do consumidor. Embora o consumo entre homens seja maior, entre o público feminino adulto o crescimento também foi expressivo: o uso de qualquer droga ilícita ao longo da vida quase dobrou, passando de 7% para 13,9%. Uma das hipóteses da pesquisadora para esse fenômeno é uma crença equivocada de que a cannabis ajudaria a “acalmar” ou controlar o estresse.
“Estamos diante de um mal-entendido: uma percepção social equivocada de que a maconha ajudaria a reduzir a ansiedade, quando, na realidade, pode aumentar o risco de desenvolvimento de transtornos ansiosos, sobretudo devido à maior potência da cannabis que circula atualmente no mercado. Esse fator poderia contribuir para explicar o cenário observado. Ainda assim, trata-se de uma hipótese, uma especulação sobre por que o aumento foi tão expressivo entre meninas”, afirma a coordenadora do levantamento.
Detalhes de uma flor de cannabis
Reprodução
Como foi feito o estudo?
Nesta edição do Lenad, a equipe aferiu a taxa de experimentação e de consumo recente de 16 drogas ilícitas no país por meio de entrevistas realizadas com uma amostra representativa da população brasileira com mais de 14 anos.
O Lenad III é considerado um estudo de alta confiabilidade por utilizar a metodologia de autopreenchimento sigiloso. Diferentemente de outras pesquisas, em que o entrevistado responde abertamente ao pesquisador, o que pode gerar subnotificação por medo ou vergonha, o participante responde diretamente em um tablet, garantindo o anonimato. Quando não sabiam ler ou escrever, os participantes registravam, em áudio anônimo, as respostas às perguntas previamente gravadas.
A amostra do estudo foi de 16.608 pessoas, cobrindo todo o território nacional, incluindo áreas urbanas e rurais. Foram sorteados 900 setores censitários em diferentes municípios. A seleção levou em conta a renda média dos domicílios: os setores foram ordenados por renda, e a probabilidade de escolha foi proporcional ao número de casas em cada setor.
Depois de listar todos os domicílios desses setores, parte deles foi selecionada aleatoriamente com a ajuda de um programa de geração de números aleatórios.
Substâncias mais consumidas.
Arte g1
O perigo para o “cérebro em desenvolvimento”
Um dos pontos destacados no levantamento é a alta proporção de jovens consumindo drogas. Segundo a pesquisadora, o acesso facilitado e a crença de que a maconha não causa danos são fatores críticos, especialmente porque qualquer substância psicotrópica, incluindo álcool, tabaco e vape, pode causar danos significativos a um cérebro ainda em desenvolvimento.
A especialista destaca que o consumo de drogas pode trazer diferentes impactos para a saúde e o desenvolvimento dos jovens. Entre as principais preocupações estão os prejuízos cognitivos, como problemas de memória e aprendizado, além de alterações no controle de impulsos, já que a substância afeta áreas do cérebro responsáveis pela tomada de decisões.
Para a pesquisadora, estratégias baseadas em “amedrontar” os jovens com informações exageradas não são eficazes. Segundo ela, a redução do consumo de drogas no Brasil depende de políticas públicas integradas. Entre as medidas necessárias estão o investimento em educação, com valorização dos professores e maior suporte às escolas, e a ampliação de opções de lazer, com oferta de atividades culturais e esportivas, especialmente voltadas a populações mais vulneráveis.
“Valorizar a educação é, sem dúvida, uma estratégia de prevenção bastante importante.”
*(Estagiária, sob supervisão de Ardilhes Moreira)