Governo quer repetir modelo da Operação Carbono Oculto a cada dois meses contra lavagem de dinheiro
31/08/2026
(Foto: Reprodução) Dario Durigan
Washington Costa/MF
O governo federal pretende transformar a Operação Carbono Oculto em uma ação permanente de combate ao crime organizado e à lavagem de dinheiro. A estratégia foi anunciada pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, durante o Macro Day, evento promovido pelo BTG Pactual nesta segunda-feira (31).
Segundo Durigan, a Receita Federal desenvolveu um sistema de inteligência artificial capaz de monitorar continuamente fundos de investimento e setores considerados mais vulneráveis à infiltração do crime organizado.
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A expectativa é que a tecnologia permita realizar uma grande ofensiva contra esquemas de lavagem de dinheiro a cada dois meses.
"Nós conseguimos botar de pé um sistema de inteligência artificial que vai usar essas informações olhando para os fundos do país, olhando para o mercado de postos de combustível e outros em que a gente vai conseguir otimizar e fazer uma Carbono Oculto a cada dois meses no país, se a gente tiver o compromisso político de avançar contra o crime organizado, em especial a lavagem de dinheiro no andar de cima", afirmou.
A iniciativa foi desenvolvida a partir das informações obtidas durante a Operação Carbono Oculto, realizada há um ano.
A investigação, conduzida em parceria entre Receita Federal, Polícia Federal, Ministério Público Federal, Ministério Público de São Paulo, Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e Secretaria da Fazenda paulista, revelou como organizações criminosas utilizavam postos de combustíveis para ocultar patrimônio e lavar dinheiro por meio de fundos de investimento e de outras estruturas do mercado financeiro.
O esquema alcançou empresas de investimentos, fundos e fintechs, permitindo mapear os mecanismos usados pelo crime organizado para movimentar recursos ilícitos.
Crime organizado na Faria Lima: por que fintechs viraram meio 'fácil' de lavar dinheiro?
Como marco do primeiro aniversário da operação, a Receita Federal cancelou, na última sexta-feira (28), cerca de mil CNPJs vinculados a contas bancárias consideradas comprometidas, impedindo essas empresas de emitir notas fiscais.
Segundo Durigan, o sistema de inteligência artificial foi treinado com os padrões identificados durante a Operação Carbono Oculto.
A tecnologia cruza dados de todos os fundos de investimento do país com informações de setores considerados mais suscetíveis à lavagem de dinheiro, como o mercado de combustíveis.
O objetivo é identificar movimentações incompatíveis com o perfil dos investimentos, estruturas usadas para ocultação de patrimônio e indícios de lavagem de dinheiro, permitindo direcionar as ações de fiscalização da Receita Federal.
Governo quer rever regras do sistema financeiro
O tema integra a agenda microeconômica do Ministério da Fazenda, que também prevê mudanças na regulação do sistema financeiro.
Segundo Durigan, a revisão das normas foi impulsionada por episódios recentes envolvendo o Banco Master e a gestora REAG, que, na avaliação do governo, evidenciaram fragilidades na regulação do mercado financeiro.
🔎 O Banco Master entrou em liquidação extrajudicial em novembro de 2025 após o Banco Central identificar uma grave crise de liquidez. O controlador da instituição, Daniel Vorcaro, foi preso no âmbito das investigações relacionadas ao caso. Já a REAG apareceu nas investigações da Operação Carbono Oculto por movimentações ligadas a um esquema de lavagem de dinheiro.
"Olhar para a regulação financeira, que acho que a gente aprendeu muito com casos Master, REAG e outros que estão aí que mostram distorções que existem, que a gente tem que fazer, evidentemente aqui, deixando claro, sem controle de capital", disse o ministro.
Outra frente de atuação envolve mudanças na legislação de recuperação judicial e falências.
Segundo Durigan, as propostas, elaboradas pela Secretaria de Reforma Econômica, buscam reduzir abusos nos processos, dar mais segurança aos credores e diminuir o custo do crédito.
"Réges, hoje é meu secretário de Reforma Econômica, tem me apresentado reformas tanto de abusos que existem na recuperação judicial, na falência, com foco em diminuir o spread, facilitar a vida do credor no Brasil", afirmou.
🔎 O spread bancário é a diferença entre o custo que os bancos têm para captar recursos e os juros cobrados dos clientes em empréstimos e financiamentos. Quanto maior o risco de inadimplência e a dificuldade de recuperar dívidas, maior tende a ser esse diferencial e, consequentemente, mais caro fica o crédito para empresas e consumidores.
Na avaliação do governo, as regras atuais permitem distorções que aumentam a insegurança jurídica, dificultam a recuperação de créditos e acabam encarecendo os empréstimos.
*Reportagem em atualização